O GLOBO - SEGUNDO CADERNO
Rio, 08 de abril de 2005 Versão impressa
Reflexões de uma época onde tudo parece possível
Luiz Camillo Osório
As obras de Marcos Chaves e Franklin Cassaro surgiram da mesma fornada da arte carioca na virada das décadas de 80 para 90. Para além do resgate de um legado experimental que andava reprimido àquela altura, havia também um desejo de se criar novas formas de politização para a arte. Não se tratava de retomar um discurso panfletário, mas de se comprometer com formas de ver e pensar não convencionais.
Nas exposições de Chaves na galeria Laura Marsiaj e Cassaro na galeria Gentil Carioca, não obstante as diferenças, há em comum uma mesma sensação de inquietude e hesitação diante do presente. Ao contrário de enfraquecer as obras, esta sensação mostra que não há uma forma direta de a arte lidar com a realidade, a não ser pela desconstrução das evidências e pela resistência ao previsível. As obras contemporâneas são políticas não só pelo que dizem ou mostram, mas principalmente pelo não dito que se atualiza em outras possibilidades de fala.
Os focos de Marcos Chaves são o desejo e a paixão
No caso de Marcos Chaves, os focos são o desejo e a paixão. Não parece um tema político, mas se torna político pela forma de tratamento, pondo em tensão o que é individual e o que é comum. Mais do que isso, o que se mostra nas fotografias, vídeos e desenhos apresentados é a própria dificuldade de representar o desejo. O que interessa nestas imagens não é o seu valor de realidade, mas a sua capacidade de produzir afetos dissonantes.
É da natureza da paixão manter-se no intervalo entre insinuação e revelação, fazendo convergir e misturarem-se as pulsões de vida e de morte. A fotografia de uma boca vermelha estourada que se transforma em uma maçã de carne fala por si sobre a simbologia e o estranhamento do desejo. O mesmo pode ser dito da "vídeo-citação" de Mapplethorpe, em que o artista segura uma caveira e faz soar uma buzina estridente. A fotografia de um bonequinho, que é um recipiente de azeite sem cabeça, é um trabalho com um apelo diferente dos outros, na medida em que o humor fica mais irônico e menos agudo.
A capacidade de misturar elementos poéticos e afetos de modo não convencional também está presente na exposição de Cassaro. O título ¿Abiogênese? já dá o tom do que se trata. Religião, política e arte. A criação espontânea da vida contra os desígnios de um Deus onipotente. Parece pretensioso, mas não é. Cabe à arte lidar com tema tão espinhoso? Como isto deve se dar? Não estaria ela fugindo do seu campo de competência? É justamente esta liberdade em arriscar-se para fora dos seus domínios específicos o que faz da arte um exercício político. O que interessa não são as respostas, mas o enfrentamento do presente.
Dízimo de R$ 1 para entrar em escultura de Cassaro
A exposição começa ao subirmos a escada da galeria. Ela foi pintada de azul e dourado, tendo no topo um "enforcamento" feito de toalhas escuras penduradas em um gancho. Uma atmosfera mais grave é estranha às exposições anteriores do artista, não obstante a permanência da mesma leveza nas obras. Esta tensão entre leveza e gravidade é interessante. Para se entrar em uma escultura inflável produzida com todas as páginas do Velho Testamento, há que se pagar o dízimo de R$ 1! Lá dentro, o calor é forte, mas o texto sagrado ainda serve de abrigo. Ao lado, pequenos sacos de plástico esperam lufadas do ventilador para se soltarem, eventualmente, no ar. Este trabalho mais delicado perdeu por estar um pouco espremido pelo inflável.
Na outra sala, que é a primeira assim que se sobem as escadas, pequenas esculturas dobradas adquirem formas ao mesmo tempo orgânicas e simbólicas. Ao lado, uma grande arca fechada. Nela estão obras que serão doadas para o Museu Nacional de Belas Artes. A procissão de doação sairá da galeria e o desprendimento do artista tem alguma dose de abnegação política; eram obras que até o fim do ano passado estavam em causa na Justiça com uma antiga galeria. Enfim, estas duas exposições nos revelam, sem clichês ou qualquer didatismo, uma época de desassossego, onde nada está dado e tudo parece possível, para o bem e para o mal.
FRANKLIN CASSARO 14:00