bioconcretismo

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Quarta-feira, Março 23, 2005

 
A criação segundo Franklin Cassaro

Escultor carioca reafirma seu interesse pela ciência e biologia na exposição individual '?abiogênese?', em cartaz no Centro do Rio

Cleusa Maria


Em rápidas palavras, abiogênese é a suposta formação de organismo vivo através de matéria morta. É ela que também dá título à mostra do escultor Franklin Cassaro, na galeria A Gentil Carioca - um reduto da arte contemporânea fundado pelos artistas Ernesto Neto, Laura Lima e Marcio Botner em um sobrado do Centro, há um ano e meio. Mas a exposição ?abiogênese? (inaugurada sábado e em cartaz até 30 de abril) traz uma dupla interrogação no nome e representa outro capítulo na trajetória de um artista que transporta para o trabalho seu interesse especial pela ciência e biologia.

- A proposta aristotélica da abiogênese, até então em desuso, retorna agora com a teoria do criacionismo se opondo ao evolucionismo espontâneo de Darwin. Há escolas no Rio, na Bahia, nos Estados Unidos ensinando às crianças que o homem veio de Adão e Eva. Provavelmente vamos entrar em uma nova Idade Média. Estou me preparando para esta era pois não quero negar, mas navegar nesta reflexão - diz o artista carioca de 43 anos, casado há 20, pai de duas meninas e leitor aplicado do Antigo Testamento.

Sem fazer individuais no Rio desde a mostra realizada no Museu de Arte Moderna, em 2000, Franklin Cassaro inicia sua exposição na Gentil Carioca já na entrada do sobrado. As paredes foram pintadas de azul e os degraus metálicos da escadaria de dourado sugerem a idéia de passagem e elevação. No interior da galeria, montou um nicho com mais uma série de suas conhecidas esculturas Vulvas, criadas a partir de formas, bandejas, utensílios de cozinha e embalagens vazias dobradas.

- Elas lembram a vulva, que lembra a mãe que gera os santos e as santas, mas não gerou Adão e Eva - tenta esclarecer.

A abiogênese de Franklin Cassaro traz ainda algumas esculturas que ele costuma usar na própria cabeça nas performances mais recentes em lugares públicos pela cidade. São crânios em folhas de alumínio amassadas que evocam a morte, como na ''boa e velha escola de arte figurativa'':

- Ao representar figuras, estou pecando contra a arte contemporânea e contra o Velho Testamento, que proibia a reprodução de formas vivas.

Ele diz que, por trabalhar com biologia, sempre se considerou um criador.

- O que faço é o bioconcretismo, usando formas geométricas para simular coisas vivas - prossegue o artista.

Nessa simulação, ele criou para a exposição atual a escultura Aerocardume, uma evocação do Milagre dos Peixes. É composta por uma centena de sacos plásticos transparentes que se transformam ''em peixes bioconcretos nadando no espaço e vivendo de ar''. Isso graças ao sopro de alguns circuladores de ar dispostos em volta das embalagens.

Além desse trabalho, a mostra exibe a obra chamada Arca, na verdade uma grande caixa de madeira recheada de esculturas remanescentes de mostras anteriores.

- Esta exposição vai ter uma culminância. Em abril, a arca sairá em procissão da Praça Tiradentes até o Museu Nacional de Belas Artes, para o qual as obras serão doadas. O ritual faz parte de uma promessa que fiz a Santa Biogênese. E assim que eu alcançar a graça pedida, faremos a procissão - anuncia ele, a sério.

Dono de trajetória reconhecida, que inclui 20 mostras individuais; 28 coletivas, no Brasil e no exterior; participações nas bienais de São Paulo, Mercosul e Havana, o escultor é conhecido por suas performances e, sobretudo, por seus abrigos. São esculturas infláveis (pelo ar de ventiladores) que já renderam trabalhos, elogios e protestos, como na primeira individual na Galeria Macunaíma, em 1988. Em celofane, a peça era tão grande que o público se viu obrigado a contemplar a obra do lado de fora, através de uma vitrine. Só cabia o artista e sua criação na sala.

- Muitos protestaram e foi uma mostra individual, individual mesmo - diverte-se Franklin.

Depois vieram os gigantescos abrigos com folhas de jornal, sempre utilizando as páginas de classificados. Agora, na mostra atual, surge uma nova versão desses infláveis. A escultura Abrigo bíblico, medindo 3,5m por 3,5m, foi construída com mais de 400 folhas de um exemplar do Antigo Testamento comprado em um sebo. Foram coladas e revestidas de fita adesiva para serem lidas pelos visitantes.

O autor diz que a obra é uma tentativa de tornar a Bíblia mais leve, para que as pessoas deixem de ter medo das coisas e da arte em geral. Os mais curiosos podem ler o texto no interior da peça, onde foi aplicada um faixa de folha de ouro. Mas para penetrar no abrigo terá de desembolsar ''o dízimo'' equivalente a um R$ 1.

- O Abrigo bíblico sintetiza todas as questões da existência. Através dele, falo de vida, de morte, de pecado, de cobiça e de perdão. Pois espero ser perdoado pelo que estou fazendo. Não estou brincando, mas trabalhando com símbolos - penitencia-se Franklin Cassaro.


http://www.jb.com.br/jb/papel/cadernob/2005/03/13/jorcab20050313003.html


FRANKLIN CASSARO 12:17


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